Em 1985, a televisão brasileira presenteou o público com uma obra que transcendeu o conceito de novela para se tornar um verdadeiro documento social. Roque Santeiro, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, não era apenas entretenimento, era um espelho afiado que refletia com humor e ironia as contradições do Brasil.
A fictícia Asa Branco se tornou um microcosmo perfeito do país, onde cada personagem representava um aspecto da nossa sociedade. No centro da trama, o misterioso retorno de Roque Santeiro, suposto mártir cuja lenda movimentava a economia local, servia como metáfora perfeita para desnudar as hipocrisias e interesses escusos que moviam (e ainda movem) o poder.
Quem assistiu jamais esqueceu a Venâncio, o todo-poderoso que controlava a cidade com mão de ferro. A inesquecível Viúva Porcina, interpretada com maestria por Regina Duarte, era a encarnação da ganância sem pudores. O coronel Sinhozinho Malta, vivido por Lima Duarte, representava a decadência da aristocracia rural. E como não se emocionar com o patético e humano Zé das Medalhas, papel que consagrou Ary Fontoura?
O que fazia de Roque Santeiro tão especial era sua capacidade única de equilibrar crítica social ferina com um humor que ia do fino ao escrachado. Os diálogos eram verdadeiras pérolas, afiados, memoráveis, cheios de duplo sentido. A direção de Paulo Ubiratan dava ritmo e estilo à produção, enquanto a trilha sonora, com clássicos como “Tieta” e “Face a Face”, completava a atmosfera única.
José Wilker

Nascido em Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, em 20 de agosto de 1944, José Wilker Almeida não era apenas um ator era um contador de histórias que moldou a cultura brasileira com sua voz, seu humor ácido e sua capacidade de se reinventar. De locutor de rádio a ícone da dramaturgia, sua vida foi um roteiro de superação, paixão pela arte e um toque de rebeldia.
Filho de um caixeiro-viajante e uma dona de casa, Wilker descobriu cedo o poder das palavras. Aos 13 anos, já se aventurava como figurante em teleteatros no Recife, onde uma ordem inusitada durante uma peça “entra lá, mata os dois e acaba com isso” revelou seu talento para improvisar no caos. No Movimento de Cultura Popular (MPC), misturou arte e política até que a ditadura militar fechou o grupo, queimando seu acervo. Foi então que partiu para o Rio, trocando a sociologia pela magia do teatro. Seu prêmio Molière por O Arquiteto e o Imperador da Assíria (1970) foi o passaporte para a TV, onde Dias Gomes o descobriu e o lançou em Bandeira 2 (1971).
Wilker tinha o dom de transformar personagens em ícones. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), seu Vadinho um sedutor póstumo virou sinônimo de charme irreverente e quebrou recordes de bilheteria. Já em Roque Santeiro (1985), ao lado de Lima Duarte e Regina Duarte, deu vida ao falso mártir Luís Roque, uma sátira sagaz à hipocrisia religiosa. Seus bordões, como o “felomenal” do ex-bicheiro Giovanni Improtta em Senhora do Destino (2004), ecoam até hoje.
Mas Wilker não se limitou à TV. No cinema, foi desde o revolucionário Tiradentes em Os Inconfidentes (1971) até o místico Antônio Conselheiro em Guerra de Canudos (1997). E, mesmo como diretor da Rede Manchete nos anos 1980, manteve a ousadia mesmo quando seus projetos não viravam audiência.
Por trás das câmeras, Wilker era um cinéfilo obsessivo. Sua coleção de 4 mil filmes e suas crônicas no Jornal do Brasil revelavam um intelectual afiado. Como comentarista do Oscar na Globo, unia erudição e humor, mostrando que, para ele, arte não tinha hierarquia: do blockbuster ao experimental, tudo era digno de análise.
José Wilker partiu em 5 de abril de 2014, aos 69 anos, vítima de um infarto. Deixou não só filmes e novelas, mas lições de coragem, como quando abandonou a Globo em solidariedade a um colega censurado e de humanidade. Seus amigos lembravam dele como “o homem mais inteligente e engraçado que conheceram”.
Regina Duarte

Nascida em 5 de fevereiro de 1947 na pacata Franca, interior de São Paulo, Regina Duarte chegou à televisão nos anos 1960 trazendo consigo o frescor da juventude e um talento singular. Com sua beleza cativante e interpretação espontânea, conquistou o coração do público e ganhou o afetuoso título de “Namoradinha do Brasil”. Seus primeiros papéis românticos na TV Excelsior mostraram apenas um vislumbre do que essa jovem atriz seria capaz. Quando migrou para a Rede Globo, levou consigo não só seu carisma, mas uma determinação férrea que moldaria uma das carreiras mais marcantes da dramaturgia brasileira. Da doçura das primeiras novelas à força de Porcina em “Roque Santeiro”, Regina traçaria um caminho tão brilhante quanto polêmico.
Regina não se limitou às novelas. No cinema, destacou-se como Madalena em São Bernardo (1984) e como a protagonista de Chiquinha Gonzaga (1999), levando para as telas a história da compositora pioneira. Mas foi como Porcina, a viúva que desafia o sistema em Roque Santeiro, ao lado de Lima Duarte e José Wilker, que ela se tornou um mito da televisão brasileira. Sua atuação, cheia de ironia e força, criticava a hipocrisia religiosa e social, marcando uma era de ouro da dramaturgia nacional.
Regina nunca teve medo de expor suas opiniões. Em 2002, causou furor ao declarar, em uma campanha eleitoral, seu medo de um governo Lula “Tenho medo. Faz tempo que não sentia isso”, tornando-se um símbolo da oposição ao PT. Anos depois, em 2020, aceitou o cargo de Secretária Especial da Cultura no governo Bolsonaro, mas sua passagem foi breve e turbulenta. Em uma entrevista à CNN, minimizou os crimes da ditadura militar, gerando críticas de colegas artistas, como Maitê Proença, e encerrando abruptamente a conversa quando questionada sobre políticas culturais durante a pandemia.
Mãe de três filhos, incluindo a atriz Gabriela Duarte, Regina construiu uma família tão diversa quanto sua carreira. Seus casamentos, como o com o diretor Daniel Filho, foram tão midiáticos quanto seus papéis. Hoje, aos 78 anos, ela segue sendo uma figura controversa, amada por uns e criticada por outros, mas inegavelmente fundamental para entender a interseção entre arte e política no Brasil.
Ary Fontoura

Nascido em 27 de janeiro de 1933, em Curitiba, Ary Beira Fontoura é muito mais que um ator é um sobrevivente. Filho de um professor e uma dona de casa, enfrentou o preconceito de uma família que via a arte como “vagabundagem”, mas trocou o diploma de Farmácia pela incerteza dos palcos. Chegou ao Rio em 1964, no mesmo dia do golpe militar, com apenas um sonho e a coragem de engraxar sapatos para pagar o aluguel.
Ary Fontoura começou cantando boleros em bordéis de Curitiba e fundando um grupo de teatro amador. Sua estreia na Globo em Rua da Matriz (1965) foi o pontapé para mais de 50 novelas. Criou tipos únicos: o lobisomem Aristóbulo de Saramandaia (1976), o sovina Nonô de Amor com Amor Se Paga (1984) e o corrupto Pitágoras de A Indomada (1997). Em Roque Santeiro (1985), deu vida ao Padre Hipólito, um clérigo hipócrita que, por trás da batina, negociava com a falsa lenda do santo, misturando devoção e ambição em mais um de seus personagens inesquecíveis.
Em 2020, assumiu publicamente sua homossexualidade após ser “descoberto” pela atriz Maria Zilda. Nas redes sociais, virou o “blogueirinho da terceira idade”, conquistando milhões com vídeos de humor e reflexões filosóficas. “Adoro viver, mas tenho medo da morte. O bom é que não sabemos como será nosso fim”, disse ao completar 90 anos. Sem filhos por opção (“ser ator é uma profissão incerta”), dedicou-se à literatura e à direção teatral, sempre com a mesma sede de aprender que o fez acumular 4 mil filmes em sua coleção pessoal.
Maurício Mattar

Nascido em 3 de abril de 1964, no Rio de Janeiro, Maurício Mattar Kirk de Souza é um artista que transcendeu os papéis de galã para se tornar um símbolo de reinvenção. Descendente de libaneses e sobrinho do pianista Pedrinho Mattar, ele começou no teatro nos anos 1970, mas foi como João Ligeiro em Roque Santeiro (1985) que conquistou o público. Sua carreira explodiu com personagens marcantes como Téo em A Viagem (1994) novela espírita que considera “atemporal” e seu maior legado é Rafael em Rainha da Sucata (1990). Apesar do sucesso, hoje prefere a vida tranquila no campo, criando cavalos no Haras Kirk, em Minas Gerais: “Estou mais reservado e discreto”, confessa.
Mattar sempre viveu sob os holofotes, tanto por seus papéis quanto por sua vida pessoal. Casou-se com Elba Ramalho em 1985, com quem teve o filho Luã, e passou por relacionamentos com Flávia Gracie, Fabiana Sá, Angélica e Paolla Oliveira. Desde 2017, está com Shay Dufau, 27 anos mais jovem, com quem teve a caçula Ilha. Paralelamente aos romances, investiu na música, lançando oito álbuns entre 1994 e 2007, e até apresentou programas como Domingão do Faustão. Sua filosofia? “Nunca fui viciado em nada. Fui um turista dentro daquilo que queria conhecer”.
Em 2019, um infarto o levou a repensar prioridades. Diagnosticado com hipertensão, adotou hábitos mais saudáveis e reduziu as atuações, dedicando-se à pecuária. Apesar do afastamento das novelas, não descarta voltar se um personagem “o seduzir”. Enquanto isso, celebra 30 anos de música e a alegria de ver A Viagem reprisada pela sétima vez na Globo: “É uma marca no coração do povo brasileiro”.
Eloísa Mafalda

Nascida em 18 de setembro de 1924, em Jundiaí, São Paulo, Mafalda Theotto, a eterna Eloísa Mafalda foi muito mais que uma atriz: foi a vizinha que todo brasileiro quis ter, a matriarca que aconselhava com humor e a beata que escondia segredos picantes. Filha de uma família tradicional (sua mãe foi dama de companhia do Barão de Jundiahy), ela quase virou atleta olímpica de natação aos 12 anos, mas o pai proibiu. O destino, porém, a levou para os holofotes de um jeito inesperado: ajudando a mãe como costureira e, depois, fazendo testes de rádio por insistência do irmão, Oliveira Neto, um nome famoso da Era do Rádio.
Sua voz doce e expressiva conquistou as radionovelas da Rádio Nacional, mas foi na TV que ela se tornou lenda. Estreou na TV Paulista e, quando a Globo a comprou, Eloísa seguiu como uma das primeiras estrelas da emissora. Seu primeiro grande sucesso foi Dona Nenê, em A Grande Família (1972), a matriarca que equilibrava o caos da família Silva com um sorriso e um olhar afiado. Mas foi como Dona Pombinha Abelha, em Roque Santeiro (1985), que ela roubou cenas: uma beata moralista que escondia um passado cheio de contradições, ao lado do marido submisso, Florindo (Ary Fontoura), seu parceiro de cena em três novelas.
Eloísa tinha o dom de transformar papéis secundários em inesquecíveis. Foi a cafetina Maria Machadão em Gabriela (1975), a solteirona Irene em Água Viva (1980) e a beata assassina Gioconda em Pedra Sobre Pedra (1992). Suas personagens eram tão reais que pareciam sair da casa ao lado: mulheres fortes, engraçadas e, muitas vezes, cheias de falhas humanas. “Tudo aconteceu por acaso. Eu não queria ser atriz. Foi tudo uma brincadeira”, dizia, revelando sua modéstia.
Casada por apenas três anos com Miguel Teixeira, com quem teve os filhos Miriam e Marcos, Eloísa preferia manter a vida privada longe dos holofotes. Viveu seus últimos anos em Petrópolis, cercada pela família, incluindo dois netos e bisnetos. Em 2018, aos 93 anos, partiu devido a uma insuficiência respiratória, deixando um vazio na dramaturgia brasileira.
Lucinha Lins

Nascida em 9 de março de 1953 no Rio de Janeiro, Lúcia Maria Werner Viana mais conhecida como Lucinha Lins, é um fenômeno de resistência e versatilidade. Filha de um pianista amador e uma mãe que embalou sua infância com canções portuguesas, ela descobriu cedo que a vida artística seria seu destino, mesmo quando o caminho parecia impossível. De cantora vaiada a ícone da dramaturgia, sua trajetória é um manifesto sobre como transformar rejeição em combustível para a reinvenção.
Nos anos 1970, integrou o Movimento Artístico Universitário (MAU) ao lado de Gonzaguinha e Ivan Lins com quem se casaria e teria três filhos. Mas foi em 1981, no Festival MPB Shell, que sua vida virou de cabeça para baixo. Ao vencer com “Purpurina” enquanto o público clamava por “Planeta Água” de Guilherme Arantes, Lucinha enfrentou 10 minutos de vaias históricas, com ventarolas de papelão arremessadas ao palco. “Foi uma agressão… tive que sair escoltada pela polícia”, confessou anos depois. Ironia do destino: o episódio, traumático, catapultou sua carreira. Meses depois, seu musical Sempre, Sempre Mais virou o espetáculo do verão carioca, e ela estampou a capa da Veja.
Na TV, Lucinha era a personagem que todos reconheciam como parte da própria casa. Em Roque Santeiro (1985), sua Mocinha Abelha a “viúva virgem” de José Wilker misturava ingenuidade e força, roubando cenas mesmo ao lado de gigantes como Regina Duarte. Já em A Viagem (1994), deu vida à sofrida Estela, uma mãe abandonada que emocionou o Brasil ao buscar reconciliação com o ex-marido (Jonas Bloch). E quem não se lembra da piromaníaca Vilma em Chamas da Vida (2008), sua primeira vilã, que provou seu talento para o lado sombrio da dramaturgia?
Lucinha nunca se limitou a um só palco. Além de cantora com discos como o Songbook Sueli Costa (2002), foi pioneira ao posar nua para a Playboy em 1984 para promover a minissérie Rabo-de-Saia. Mãe de quatro filhos (incluindo o ator Cláudio Lins) e avó desde 2008, ela construiu uma família tão plural quanto seus personagens. Com o segundo marido, Cláudio Tovar, criou espetáculos infantis como Sapatinho de Cristal e até um programa de TV (Lupu Limpim Claplá Topô), mostrando que arte e infância sempre andaram juntas em sua vida.
Em 2025, Lucinha retornou às novelas da Globo após 21 anos em Volta por Cima, provando que talento não tem prazo de validade. Em entrevistas, reflete com humor sobre a idade: “Vou ficar uma velhinha bonitinha… mas ainda subo em árvores!”. Sua peça As Meninas Velhas, sobre mulheres maduras que vivem com paixão, é um testemunho de sua filosofia: “A cabeça fica nos 30 anos, mas o corpo não. E tudo bem”.
Armando Bógus

Nascido em 19 de abril de 1930, em São Paulo, Armando Assad Bógus foi muito mais que um ator, foi um espelho das contradições e paixões brasileiras. Filho de uma família de classe média, estudou no Colégio Marista Arquidiocesano, mas foi expulso de duas escolas por militar em grupos de esquerda nos anos 1950, revelando desde cedo seu espírito inquieto. Sua trajetória, marcada por personagens complexos e uma dedicação ferrenha ao teatro, cinema e TV, o tornou um dos pilares da dramaturgia nacional.
Armando começou no teatro em 1955, com a peça Moral em Concordata, adaptada para o cinema em 1959, seu primeiro filme. Fundador do Pequeno Teatro de Comédia (PTC) ao lado de Antunes Filho, ele brilhou em montagens ousadas como Marat/Sade (1967) e Hair (1969), esta última um marco cultural no Brasil. Na TV, estreou na Tupi e, depois, na Globo, onde se consagrou como Juca no Vila Sésamo (1972-1975), ao lado de Sônia Braga um papel que o aproximou do público infantil.
Sua versatilidade permitia transitar entre o cômico e o dramático com maestria. Em Gabriela (1975), seu Nacib, o comerciante turco apaixonado, tornou-se um ícone. Já em Roque Santeiro (1985), deu vida ao avarento Zé das Medalhas, um dos vilões mais memoráveis da TV, ao lado de Regina Duarte e José Wilker. Outros papéis marcantes incluíram o médico Daniel em Ciranda de Pedra (1981), o coronel Licurgo Cambará em O Tempo e o Vento (1985), e o infiel Modesto Pires em Tieta (1989), seu último trabalho exibido em vida.
Casado duas vezes, primeiro com a atriz Irina Grecco, com quem teve um filho, e depois com Elizabeth Nunes Souza, Armando era primo do jornalista Luís Nassif, ligação que revelava seu lado intelectual. Sua despedida foi tão marcante quanto seus personagens. Em maio de 1993, aos 63 anos, Armando Bógus morreu de leucemia após dois meses de luta no Sírio-Libanês, deixando o Brasil órfão de um de seus maiores intérpretes. Com a ironia que sempre o caracterizou, sua última cena foi na minissérie Sex Appeal, exibida postumamente como se a vida tivesse reservado esse derradeiro ato para encerrar com perfeição quase quatro décadas de carreira.
Cássia Kis

Foi em uma casa simples de São Caetano do Sul, em 1958, que nasceu uma menina destinada a desafiar convenções. Filha de um mecânico e neta de imigrantes húngaros, aos 15 anos foi expulsa de casa por sua rebeldia inquebrantável. Vendia sanduíches na praia e limpava casas no Rio para pagar aulas de teatro, transformando cada dificuldade em degrau para o sucesso. Das ruas aos palcos, construiu uma carreira brilhante marcada por personagens inesquecíveis que ecoavam sua própria intensidade. Mas foi também sua personalidade controversa, cheia de opiniões fortes e contradições, que a tornou um fenômeno complexo da cultura brasileira.
Sua estreia na TV foi como a empregada Flávia em Cara a Cara (1979), mas foi em Roque Santeiro (1985) que brilhou como Lulu, a esposa traída de Zé das Medalhas (Armando Bógus). O ápice veio em Vale Tudo (1988), quando revelou-se a assassina de Odete Roitman, cena que entrou para a história da TV. Cássia tinha um dom único para transitar entre a vulnerabilidade e a ferocidade, como em Porto dos Milagres (2001), onde sua Adma, uma vilã religiosa e manipuladora, lhe rendeu o Troféu Imprensa.
Nos últimos anos, Cássia tornou-se tão conhecida por suas opiniões quanto por seus papéis. Em 2022, declarou em uma live que “a pandemia foi maravilhosa” e criticou relações homoafetivas, gerando acusações de homofobia. Foi expulsa do condomínio onde morava após conflitos com vizinhos LGBTQIA+ e, em 2025, viralizou ao repreender jovens de biquíni em um supermercado: “Isso é falta de respeito!”.
Mãe de quatro filhos, dois com o publicitário João Alberto Fonseca e dois com o jornalista Sérgio Brandão, Cássia encontrou estabilidade ao se casar com o psicanalista João Baptista Magro Filho em 2009. Apesar das turbulências, mantém uma relação próxima com os filhos, especialmente Maria Cândida, que seguiu carreira artística.
Fábio Jr.

Na São Paulo dos anos 1950, em um apartamento de classe média onde o rádio sempre tocava, nascia um menino que levaria o romantismo brasileiro para todos os palcos do país. Fábio Corrêa Ayrosa Galvão, ainda pequeno, descobriu a magia da música ao lado dos irmãos no grupo Os Namorados, onde as apresentações no programa Mini-Guarda da TV Bandeirantes eram mais que diversão, eram o primeiro vislumbre de seu destino. Aquele garoto tímido de sorriso fácil não sabia ainda que se tornaria o eterno Fábio Jr., voz de uma geração e coração de muitas outras. Sua história começava ali, entre ensaios infantis e a descoberta de que os palcos seriam, dali em diante, sua segunda casa.
Nos anos 1970, adotou os pseudônimos Uncle Jack e Mark Davis para gravar músicas em inglês, como “Don’t Let Me Cry” (1973), que fez sucesso nas rádios. Mas foi ao assumir seu nome artístico escolhido para não ser confundido com o ator Flávio Galvão que conquistou o país. Sua balada “Pai” (1978), composta para o seriado Ciranda Cirandinha, virou hino do Dia dos Pais e tema da novela Pai Herói.
Na TV, Fábio Jr. era o galã de olhar melancólico e charme irresistível. Marcou época como Luís Jerônimo em Cabocla (1979), onde conheceu Glória Pires, com quem viveu um amor intenso e turbulento, e como Roberto Mathias em Roque Santeiro (1985), ao lado de Regina Duarte. No cinema, brilhou em Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues, enquanto na música emplacava hits como “20 e Poucos Anos”, “Alma Gêmea” e a emocionante “Sem Limites Pra Sonhar”, em dueto com Bonnie Tyler (1987).
Sua vida pessoal foi tão dramática quanto suas novelas. Casou-se sete vezes com destaque para os relacionamentos com Glória Pires (mãe de Cleo Pires) e Guilhermina Guinle com quem teve cinco filhos, incluindo o artista Fiuk. Em 2016, encontrou estabilidade ao se casar com Fernanda Pascucci, ex-presidente de seu fã-clube, com quem vive até hoje.
Aos 71 anos, Fábio Jr. segue como um ícone. Em 2025, foi homenageado no Som Brasil da Globo, onde relembrou 50 anos de carreira e emocionou o público ao cantar “Pai” ao lado de Luísa Sonza. Sua história é cheia de altos e baixos, amores e arrependimentos, é um reflexo do Brasil: vibrante, apaixonado e eternamente romântico.
Yoná Magalhães

Nascida em 7 de agosto de 1935, no subúrbio do Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro, Yoná Magalhães Gonçalves Mendes da Costa não imaginava que sua vida tomaria os rumos de uma das carreiras mais brilhantes da dramaturgia nacional. Filha de uma família simples, entrou no mundo artístico quase por acaso: “Meu pai ficou desempregado, e eu precisava ajudar. Gostava de brincar de teatro, então pensei: ‘Por que não tentar?'”. Começou fazendo pequenos papéis na Rádio Tupi em 1954, ainda antes da era do videoteipe, lavando roupa para atores em troca de oportunidades.
Sua primeira grande virada veio com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, onde interpretou Rosa. À época, nem ela mesma dimensionava a importância do filme: “Não entendi a grandeza da obra. Foi só depois que percebi que estava no meio de algo revolucionário”. Na TV, tornou-se a primeira mocinha de sucesso da Globo em Eu Compro Esta Mulher (1966), formando com Carlos Alberto um dos casais mais amados da televisão. A química era tanta que os dois se casaram na vida real, embora o matrimônio tenha durado apenas cinco anos.
Yoná tinha o dom de transformar papéis secundários em antológicos. Em Roque Santeiro (1985), sua Matilde dona de uma boate roubou cenas com um humor ácido e um visual ousado que a levou até as páginas da Playboy: “As pessoas se surpreenderam com minhas pernas, mas eu já sabia que elas eram bonitas há décadas!”. Já em Tieta (1989), deu vida à sofrida Tonha, uma mulher humilhada pelo marido (Sebastião Vasconcelos) que, ao se libertar, virou símbolo de resiliência.
Yoná enfrentou batalhas pessoais dolorosas, como a morte do filho Marco Mendes, fruto de seu primeiro casamento com Luís Augusto Mendes. Nos palcos, encontrou refúgio: montou sua própria companhia teatral e brilhou em clássicos como Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Mesmo após seis décadas de carreira, manteve a paixão pela arte até seu último trabalho, em Sangue Bom (2013), onde interpretou uma socialite decadente.
Partiu em 20 de outubro de 2015, aos 80 anos, vítima de insuficiência cardíaca. Seu último ato foi tão marcante quanto sua trajetória: deixou mais de 30 novelas, filmes que entraram para a história do cinema e uma lição de que “a vida artística é feita de acasos, mas só os persistentes os transformam em legado”.
Paulo Gracindo

Nascido em 16 de julho de 1911 no Rio de Janeiro, Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo o eterno Paulo Gracindo, foi muito mais que um ator: foi um pedaço vivo da cultura brasileira. Filho de um político influente de Alagoas, Demócrito Gracindo, ele cresceu sob a sombra de um pai que ameaçava “arrancá-lo do palco pela gola” se o visse atuar. Mas após a morte do pai, em 1928, o jovem rebelde partiu para o Rio com um sonho e a roupa do corpo, dormindo nas ruas e comendo em pensões baratas até conquistar seu espaço nos palcos.
Nos anos 1940, Paulo Gracindo se tornou uma voz familiar na Rádio Nacional, onde interpretou o mocinho Alberto Limonta em O Direito de Nascer e criou o icônico Primo Rico no programa Balança Mas Não Cai, um personagem tão amado que foi transplantado para a TV anos depois. Mas foi como Odorico Paraguaçu, o prefeito corrupto de O Bem-Amado (1973), que ele entrou para a história. Com seu português enrolado e frases como “mui justamente cognominada a pérola do norte”, Gracindo não apenas interpretou um político: ele criou uma caricatura tão perfeita que se confundiu com a realidade brasileira. O papel lhe rendeu o prêmio da APCA e um lugar no coração do público, mesmo quando o seriado derivado da novela foi ao ar nos anos 1980, o Brasil ainda ria das trapalhadas do prefeito de Sucupira.
Além de Odorico, Gracindo deixou outros personagens inesquecíveis: Tucão, o bicheiro de Bandeira 2 (1971), que falava em “coisas de Laurinha!” como se fossem leis universais; Padre Hipólito em Roque Santeiro (1985), um religioso ambiguamente cúmplice dos poderosos; e Betinho, o marido enganado em Rainha da Sucata (1990), que vivia às custas da vilã Laurinha (Glória Menezes). No cinema, participou de clássicos como Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha, embora brincasse que filmar era “coisa de chinês” pela paciência exigida.
Paulo Gracindo tinha humor até sobre o próprio nome, contava que, antes de adotar o nome artístico, era chamado de “Petrópolis”, “Pelópes” e até “Envelope” pela empregada. Na juventude, participou da Revolução de 1930 como soldado, abrindo trincheiras nas ruas de Recife. Pai do ator Gracindo Júnior e avô de Gabriel Gracindo, ele via a família como seu maior legado: “Este homem que tantos homens foi… é meu pai”, escreveu o filho no livro Um Século de Paulo Gracindo.
Partiu em 4 de setembro de 1995, aos 84 anos, vítima de câncer de próstata. Seu último trabalho foi na minissérie Agosto (1993), como um maestro decadente, um papel sutil que contrastava com sua verve cômica. Hoje, seu nome batiza teatros e sua frase “Vamos inaugurar o cemitério com um defunto!” ainda ecoa como metáfora do Brasil.
Alexandre Frota

Nascido em 1964 no Rio de Janeiro, Alexandre Frota é uma figura que desafia rótulos fáceis. De ator pornô a deputado federal, sua trajetória é marcada por contradições, superação e polêmicas que refletem as complexidades do Brasil contemporâneo.
Criado nas “areias escaldantes de Copacabana” e no “assalto casca-grossa de Vila Isabel”, Frota viveu uma infância dura. Em entrevista emocionada ao Domingão com Huck, revelou que começou na Globo ainda jovem, sem estar preparado para o sucesso repentino. Em Roque Santeiro (1985), deu vida a Tião da Lua, um dos capangas de Sinhozinho Malta, personagem que misturava violência e comicidade, marcando sua primeira grande atuação na TV. “Sempre abri meus caminhos na marra”, confessou, lembrando de episódios como liderar a torcida do Flamengo e jogar futebol americano no Corinthians antes de encontrar no entretenimento seu porto seguro.
Em 2006, em um dos momentos mais difíceis, tornou-se o “principal ator de filmes adultos do país”. “Fiz isso para não morrer de fome”, admitiu, sem vitimismo. Essa fase, embora polêmica, foi crucial para sua reinserção no mainstream. Anos depois, ao adotar Enzo (filho de sua então companheira Fabi), enfrentou o desafio de explicar ao garoto seu passado: “Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida”.
Eleito deputado em 2018 pelo PSL de Bolsonaro, Frota logo se tornou crítico ferrenho do governo, denunciando redes de fake news ligadas a Olavo de Carvalho e à família presidencial. Suas acusações renderam-lhe tanto aliados quanto inimigos, incluindo processos judiciais, como a condenação a pagar R$ 50 mil por divulgar dados pessoais de um desembargador. Paralelamente, brigas familiares vieram à tona, especialmente com o filho Mayã, que publicamente criticou seu passado.
Hoje, aos 61 anos, Frota busca reconstruir sua imagem para as filhas Bella e Ilha. “Quero deixar minha filha orgulhosa do pai”, disse a Huck, em um raro momento de vulnerabilidade. Sua história do pornô ao Parlamento, das drogas à defesa da abstinência é um espelho distorcido de um país que oscila entre o puritanismo e a libertinagem.
João Carlos Barroso

Nascido em 28 de fevereiro de 1950, no Rio de Janeiro, João Carlos de Albuquerque Melo Barroso era aquele tipo de artista que fazia parecer fácil. Descoberto aos 11 anos jogando bola nas calçadas de Copacabana por produtores argentinos, sua vida mudou quando foi escalado para o filme Pedro e Paulo (1961), ao lado de nomes como Francisco Cuoco e Jardel Filho. Assim começava a trajetória de um menino que, sem saber, se tornaria um dos rostos mais queridos da dramaturgia brasileira.
João Carlos tinha o dom de transformar personagens secundários em inesquecíveis. Seu Tavico em Estúpido Cupido (1976), o jovem rebelde da turma do Mederix (Ney Latorraca), arrancava risos e suspiros. Mas foi como Toninho Jiló, o guia turístico de Asa Branca em Roque Santeiro (1985), que ele conquistou definitivamente o público. Com um humor contagiante e uma presença de palco que misturava ingenuidade e sagacidade, Toninho era o coração da trama, assim como João Carlos era o coração dos sets de gravação.
Ao longo de cinco décadas de carreira, Barroso formou duplas icônicas. Lima Duarte foi seu “pai” em três novelas: O Bem-Amado (1973), Pecado Capital (1975) e Marron Glacê (1979). “Era mágico trabalhar com ele”, contou certa vez sobre Lima. Já no humor, brilhou por 13 anos no Zorra Total, onde sua versatilidade para imitar sotaques e criar tipos excêntricos rendia gargalhadas diárias.
Apaixonado por futebol, João Carlos era presença certa nos times de artistas. Colegas lembravam seu alto astral: “Ele chegava no set e o clima melhorava”, disse Lucio Mauro Filho. Apesar do sucesso, manteve uma simplicidade rara, morava no mesmo apartamento em Copacabana por 40 anos e adorava um churrasco com amigos.
Em 12 de agosto de 2019, aos 69 anos, João Carlos partiu vítima de câncer no pâncreas. Seu último trabalho, como o delegado Mesquita em Sol Nascente (2016), mostrou que seu talento permanecia intacto. Deixou não só uma filmografia extensa, mas a lembrança de um artista que, como seus personagens, nunca perdeu a alegria de viver.
Lima Duarte

Nascido em 29 de março de 1930, no interior de Minas Gerais, Ariclenes Venâncio Martins, mais conhecido como Lima Duarte é muito mais que um ator: é um pedaço vivo da história cultural do Brasil. Sua trajetória, marcada por desafios e superações, reflete a resistência e a paixão pela arte que transformou o rádio, o teatro, o cinema e a televisão brasileira.
A infância humilde no povoado de Desemboque, onde ajudava o pai boiadeiro e se encantava com as performances da mãe no circo, já anunciava o destino artístico de Lima. Aos 15 anos, chegou a São Paulo em um caminhão carregado de mangas, sonhando com o rádio. Reprovado em um teste por seu sotaque caipira chamado de “voz desovaco”, não desistiu. Tornou-se sonoplasta e, com a ajuda da mãe, adotou o nome artístico do seu “guia de luz”: Lima Duarte.
Lima foi um dos primeiros a pisar nos estúdios da TV Tupi em 1950, participando do programa inaugural da televisão brasileira. Estreou na primeira telenovela do país, Sua Vida Me Pertence (1951), e nunca mais parou. Seu talento versátil o levou a interpretar desde caipiras até aristocratas, sempre com uma profundidade que cativava o público. No Teatro de Arena, aprimorou sua técnica, criando personagens com nuances psicológicas ricas, como em O Testamento do Cangaceiro, que lhe rendeu prêmios e uma bolsa de estudos na França.
Quem não se lembra de Zeca Diabo, o jagunço de O Bem-Amado, cuja voz fina e humor ácido conquistou o Brasil? Ou do Sinhozinho Malta, o coronel corrupto de Roque Santeiro, que misturava poder e tragicômico? Lima Duarte tinha o dom de transformar papéis em símbolos nacionais. Sassá Mutema, em O Salvador da Pátria, foi outro marco: um homem simples que “caminhava sobre menos e menos”, metáfora do próprio país.
Além da carreira, Lima construiu uma família de artistas. Pai da atriz Débora Duarte e avô de Paloma Duarte, ele sempre manteve os pés no chão, mesmo com a fama. Vive em um sítio em Itaí, São Paulo, onde compartilha momentos simples com seus seguidores nas redes sociais. Sua história é a de um homem que, mesmo aos 95 anos, ainda vibra com a arte: “Prefiro ser lembrado como um bom ator, não como celebridade”, diz.
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