Nos anos 90, a TV Cultura presenteou o Brasil com um verdadeiro tesouro da infância: o programa Rá-Tim-Bum. Entre 1990 e 1994, essa produção revolucionária mostrou que era possível aprender se divertindo, criando um modelo de TV infantil inteligente e criativo que marcou época.
Quem não se lembra do cientista desastrado Euclides e suas invenções malucas? Ou da elegante cobra Sílvia, que ensinava com classe? O elenco cativante incluía ainda o Professor Tibúrcio, interpretado por Marcelo Tas, que com seu humor peculiar conquistava crianças e adultos.
O programa brilhava em sua capacidade de transformar conceitos complexos em brincadeiras. Através de quadros como o “Jornal da Criança” e “Senta que Lá Vem História”, temas como matemática, ecologia e cidadania eram apresentados de forma lúdica e acessível. As músicas, compostas por nomes como Edu Lobo e interpretadas por artistas como Caetano Veloso, viraram verdadeiros hinos de uma geração.
A produção era impecável, cenários coloridos, figurinos criativos e uma direção que valorizava a imaginação. Não era à toa que o programa formou plateias críticas e despertou tantas vocações artísticas. Muitos de seus atores seguiram brilhando no teatro, cinema e televisão.
Mais que um programa, o Rá-Tim-Bum foi uma experiência marcante que uniu gerações e mostrou o poder transformador da educação aliada à diversão. Um verdadeiro tesouro da nossa cultura que continua a inspirar e encantar.
João Victor d’Alves

Nascido em Belo Horizonte em 18 de outubro de 1981, João Victor d’Alves carrega no sorriso e no jeito descontraído as memórias de uma infância marcante na TV brasileira. Quem cresceu nos anos 90 certamente se lembra dele como Ivo, um dos queridos personagens do Rá-Tim-Bum, programa icônico da TV Cultura que educou e divertiu gerações. Mas foi sua voz e seu rosto na vinheta “Senta que lá vem história” que o transformaram em parte do imaginário afetivo de milhões de brasileiros. Durante anos, muitos se perguntaram: “Quem era aquele menino?” e a resposta veio com confirmação dele e da emissora.
Mas João Victor não ficou preso às lembranças do passado. Apaixonado por arte desde cedo, mergulhou no teatro, onde interpretou textos densos de Nelson Rodrigues, Tchekhov e Augusto Boal, provando que seu talento ia muito além das câmeras infantis. No cinema, conquistou reconhecimento em festivais, como o de Brasília, onde levou o prêmio de Melhor Ator em 2010 por sua atuação em um curta-metragem.
Com o tempo, sua curiosidade e visão criativa o levaram para trás das câmeras. Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Gestão Cultural, ele abraçou a produção e direção com a mesma energia que tinha no Rá-Tim-Bum. Hoje, como vice-presidente de novos negócios na produtora Mood Hunter, comanda projetos para grandes canais como HBO, AXN, CNN Brasil e History Channel, especializando-se em séries documentais e realities. Entre suas produções estão títulos como Perícia Lab (AXN), Dog Challenge (History Channel) e Herchcovitch; Exposto (HBO/WBD).
Pamella Domingues

Aos três anos de idade, Pâmela Domingues já mostrava seu talento diante das câmeras. Nascida em 25 de maio de 1987, a pequena paulistana integrou o elenco do icônico “Rá-Tim-Bum” (TV Cultura, 1990-1994) como Lúcia, a caçula arteira da família comandada por Eva da Silva (Grace Gianoukas). Suas cenas ao lado do “irmão” Ivo (João Victor d’Alves) ficaram marcadas na memória afetiva de uma geração, especialmente aquelas em que a pequena travessa aprontava alguma e precisava ser repreendida pela “mãe” Grace, tanto no programa quanto nos bastidores.
Anos mais tarde, já formada em Rádio e TV pela FAAP, Pâmela retornou à TV Gazeta, emissora onde sua mãe, Marinês Rodrigues, trabalhava, para escrever um novo capítulo de sua história. Começou humildemente no televendas em 2006, mas seu talento brilhante logo a levou para o jornalismo.
No programa “Mulheres”, criou o quadro “Vambora”, onde explorava São Paulo com um olhar único que transformava o ordinário em extraordinário. Sua paixão por gastronomia e viagens a levou a comandar programas como “Hoje Tem” e “Mundo à Mesa”, sempre com aquela autenticidade que conquistou o público, a mesma que mostrava desde os tempos de Rá-Tim-Bum.
Em 2023, veio o reconhecimento máximo: assumir a bancada principal do “Mulheres”. No mesmo ano, outra grande virada: anunciou que seria mãe. Bento chegou em fevereiro de 2024, completando a trajetória da menina que começou na TV interpretando uma filha e agora vive a maternidade na vida real.
Grace Gianoukas

Nascida em 1963, filha de um grego apaixonado e uma brasileira de descendência italiana e portuguesa, Grace Gianoukas cresceu entre culturas tão diversas quanto seu talento. Formou-se em Artes Cênicas, mas seu verdadeiro diploma veio das ruas, dos palcos improvisados, da vida que observava com olhos atentos e transformava em arte.
Nos anos 80, quando o Brasil ainda engatinhava no humor inteligente, Grace já sacava piadas afiadas sobre política e sociedade. Criou o Terça Insana não para fazer rir, mas para fazer pensar, e quando riam no processo, melhor ainda. Seus personagens eram espelhos distorcidos de nós mesmos, mostrando nossas contradições com um sorriso no rosto.
Quem não se lembra da Eva do Rá-Tim-Bum? Aquela mãezinha que parecia ter saído da casa da vó de todo mundo. Grace quase recusou o papel, achava que não tinha “cara de mãe”. Ironia do destino: tornou-se a mãe televisiva de uma geração inteira. Anos depois, quando reencontrou seus “filhos” da ficção, João Victor e Pâmela Domingues, foi como se o tempo não tivesse passado, o amor só tinha crescido.
Na TV, deixou sua marca em personagens que misturavam doçura e acidez. Teodora, a advogada de Haja Coração, era como aquela tia que te dá conselhos afiados junto com um pedaço de bolo. Ermelinda, de Salve-se Quem Puder, parecia que tinha saído diretamente da fila do banco.
A vida de Grace nunca foi um mar de rosas. Em 2025, durante a turnê da peça sobre Dercy, fraturou o braço mas não o humor: “Dercy espera, gente!”. Quando hackers invadiram sua conta e anunciaram falsamente sua morte, Grace ressurgiu com um “Cadê meu velório que eu não tô vendo?”.
Casada com Paulo Marcel Almeida e mãe de Nikolas, Grace vive em São Paulo mas carrega no sotaque e no coração seu Rio Grande do Sul. Aos 61 anos, continua fazendo o que sempre fez melhor: contar histórias. Não as histórias de reis e rainhas, mas as nossas histórias, com todas as imperfeições, risos e lágrimas que fazem delas tão humanas.
Roney Facchini

Nascido em São Paulo em 1953, Roney Facchini começou a vida desenhando estruturas na Escola de Engenharia Mauá, mas foi no palco que encontrou seu material mais resistente. Formado em números e cálculos, preferiu as equações imprevisíveis da arte, onde 1 + 1 pode ser riso, drama ou qualquer coisa entre eles.
Quem cresceu nos anos 90 lembra dele como o Luís da Silva do Rá-Tim-Bum, aquele vizinho desastrado que ensinava matemática entre uma trapalhada e outra. Nos bastidores, virou o “tio” do elenco, aquele que contava piadas secas entre uma gravação e outra e sempre tinha um café quente pra oferecer.
Da TV Cultura à Globo, Roney nunca se prendeu a um só tipo de personagem. Num dia era o humorista de A Diarista, no outro o dramaturgo de Ou Você Poderia Me Beijar, peça onde deu voz delicada a um amor gay na terceira idade. “Não existe papel pequeno”, costuma dizer, “existe é ator que não entrega grandeza”.
Nos cinemas, deixou sua marca em mais de 20 filmes, do caos engraçado de Vai que Dá Certo à tensão de Polícia Federal. E mesmo em produções infantis como O Segredo dos Golfinhos, levou o mesmo respeito, sabendo que criança merece arte bem feita tanto quanto adulto.
Aos 71 anos, ainda é possível encontrá-lo nos corredores dos teatros de São Paulo, óculos na ponta do nariz, dando conselhos para jovens atores entre um gole de café. “A gente se aposenta do emprego, não da paixão”, diz, enquanto ensaia mais um personagem.
Marcelo Tas

Nascido em 1959 em Ituverava, interior de São Paulo, Marcelo Tas poderia ter seguido o caminho seguro da engenharia que estudou na Poli-USP. Mas o mundo perdeu um calculista de estruturas e ganhou um arquiteto de novas formas de se comunicar, sempre com um pé no jornalismo e os dois olhos no futuro.
Nos anos 80, inventou Ernesto Varela o repórter fictício que desmontava pompas com perguntas afiadas. Era humor, mas do tipo que faz pensar. “Não queria fazer piada, queria fazer perguntas que outros não faziam”, conta. O personagem foi o primeiro sinal de que Tas misturava como poucos crítica social e risada.
Nos anos 90, trocou as entrevistas provocativas por ensinar crianças, sem deixar de ser provocador. Como Professor Tibúrcio no Programa Rá-Tim-Bum, mostrou que educação podia ser divertida. “As crianças são o público mais sincero. Se não presta, elas viram as costas na hora”, brinca. Nos bastidores, ajudou a criar o Telecurso 2000, provando que sua vocação para ensinar era tão forte quanto para entreter.
O CQC (2008-2015) cristalizou sua marca: jornalismo com humor, mas sem perder o furo. “Fizemos rir, mas nunca deixamos de apurar”, lembra. Quando o programa acabou, muitos pensaram que Tas ficaria no passado. Engano. Migrou para o digital antes da maioria, provando que, aos 60 anos, entendia mais de internet que muitos youtubers.
Hoje, aos 64, divide seu tempo entre o Provoca na TV Cultura, onde recebe gente interessante para conversas que vão a fundo sem perder a leveza, e as raias da USP, onde rema como quem medita em movimento. “Remar é como fazer comunicação: tem que ter ritmo, força e saber quando parar”.
Nas redes, nos livros, na TV ou na sala de aula (porque nunca parou de ensinar), Marcelo Tas segue sendo aquele menino de Ituverava que descobriu cedo: para comunicar bem, precisa misturar inteligência com alma.
Paulo Contier

Havia algo mágico na maneira como ele aparecia na tela, chapéu caído sobre os olhos, capa esvoaçante e aquele jeito de quem sempre tinha um segredo para compartilhar. Paulo Contier, o querido Detetive Máscara do Programa Rá-Tim-Bum, não interpretava um personagem: ele criava um companheiro de aventuras para milhões de crianças nos anos 90.
O curioso é que, enquanto seu personagem solucionava mistérios, o próprio ator sempre manteve sua vida envolta em certa discrição. Não sabemos quando nasceu, por onde anda hoje, ou o que pensa sobre ter marcado uma geração. Mas talvez essa seja justamente a beleza de sua história, ele existiu para nós puramente através da tela, como um amigo imaginário que, de repente, ganhou carne e osso.
Quando reapareceu em 2023 na websérie comemorativa da TV Cultura, foi como reencontrar um tio querido depois de décadas. Ao lado de Carlos Moreno, o eterno Euclides, Paulo dividiu histórias que revelavam o carinho por aquele tempo. Não eram relatos de fama ou glamour, mas sim de um trabalho feito com dedicação, daqueles que plantam sementes sem saber que um dia virariam árvores na memória afetiva de tantas pessoas.
Seu legado vai além dos episódios do programa ou de suas participações em filmes como Meu Amigo Hindu. Está no jeito como uma geração inteira lembra dele, não como uma celebridade distante, mas como aquela figura acolhedora que nos fazia sentir inteligentes quando decifrávamos as pistas junto com ele.
Hoje, enquanto o mundo corre atrás de likes e visibilidade, Paulo Contier segue seu caminho quieto, sem redes sociais ou holofotes. Mas talvez ele saiba, no fundo, que conseguiu algo raro: tornar-se eterno não pela exposição, mas pelo simples fato de ter feito, com genuíno cuidado, o que amava. E isso, no fim das contas, é o que faz um herói de verdade.
Márcio Ribeiro

Era impossível assistir ao X-Tudo sem se contagiar pelo jeito dele. Márcio Ribeiro não era apenas um apresentador, era aquele tio divertido que sabia transformar qualquer assunto em brincadeira, fazendo a gente aprender sem nem perceber. Com seu humor inteligente e olhar acolhedor, ele nos fez acreditar que televisão podia ser sinônimo de alegria e descoberta.
Nos anos 90, enquanto muitos programas infantis buscavam apenas entreter, Márcio escolheu conversar com as crianças de igual para igual. Seus quadros no X-Tudo e no Programa Rá-Tim-Bum eram cheios de invenções malucas, piadas que só ele sabia contar e, principalmente, respeito pelo público mirim. Não é atoa que virou referência para uma geração que cresceu querendo ser tão criativa quanto ele.
Por trás das câmeras, Márcio era um artista inquieto. Pioneiro do stand-up no Brasil, subia aos palcos com um humor ácido e autêntico, muito antes de o gênero fazer sucesso por aqui. Nos palcos, criou espetáculos como “Venha Antes que EU Acabe”, onde transformou até seus problemas de saúde em lições de resiliência e graça.
Partiu cedo demais, em 2013, mas deixou um legado que não cabe em telas ou palcos. Está nas risadas que ecoam até hoje em quem o viu apresentar, nos comediantes que ele inspirou e na lembrança afetuosa de quem trabalhou com ele. Márcio nos ensinou que humor pode ser gentil, que aprender pode ser divertido e, acima de tudo, que a vida mesmo nas dificuldades merece ser encarada com leveza.
Norival Rizzo

Havia algo no jeito dele que fazia a cena parecer aconchegante. Norival Rizzo, com seu olhar atento e voz que podia ser tanto um sussurro quanto um trovão, nunca foi apenas um ator, era aquele professor, vizinho ou tio que todos gostaríamos de ter. Nascido em São Paulo em 1952, ele cresceu para se tornar um daqueles raros artistas que conseguem fazer magia tanto num comercial de TV quanto nos versos de Shakespeare.
Nos anos 90, enquanto as crianças corriam para a frente da TV depois da escola, Norival estava lá: no “Mundo da Lua” fazendo a gente refletir, no “Programa Rá-Tim-Bum” nos ensinando sem dar lições, e na “Revistinha” com aquele jeito de quem está compartilhando segredos especiais. Seus personagens nunca falavam para as crianças, falavam com elas, uma diferença sutil que marcou uma geração.
Mas Norival nunca se contentou em ser só o tio querido da TV. Nos palcos, era um camaleão: um dia arrancava risadas em Woody Allen, no seguinte mergulhava nas profundezas de Albee. Quando interpretou FHC no cinema, não fez uma caricatura, trouxe um homem complexo, cheio de camadas. E mesmo ao abordar temas difíceis como a saúde masculina em seu monólogo, conseguiu a proeza de tratar do assunto com graça e humanidade.
Em 2024, aos 72 anos, continua em cena na peça “Ainda Dá Tempo” título que parece um manifesto. Norival Rizzo prova que arte não tem data de validade. Seu segredo? Talvez seja essa combinação rara: a técnica impecável de quem se formou na ECA-USP e a alma generosa de quem nunca perdeu o prazer de contar histórias.
Jéssica Canoletti

Era impossível ver aqueles comerciais dos anos 80 sem se encantar com a menina de olhos brilhantes e sorriso cativante. Jéssica Canoletti não era apenas uma atriz mirim, era a personificação da infância que todos queríamos ter. A Melissinha Transparentinha nos seus pés, a botinha da Xuxa que virou febre nacional, e aquela doçura natural que fazia as marcas disputá-la como a garota-propaganda perfeita.
Nos estúdios do Programa Rá-Tim-Bum, entre 1990 e 1994, ela deixou de ser apenas Jéssica para se tornar Fada Dalila, não uma fada qualquer, mas aquela que parecia entender segredos das crianças. Com sua varinha e traje colorido, não precisava de efeitos especiais: sua genuína doçura era mágica suficiente.
O que muitos não sabiam é que aquela menina dourada da TV, vinha de uma família onde a arte corria nas veias. As irmãs Shirley e Valeska também trilharam caminhos artísticos, mas Jéssica escolheu um voo diferente. Quando a adolescência chegou, ela simplesmente dobrou as asas de fada e partiu para uma vida mais tranquila, não por fracasso, mas por opção.
Hoje, longe dos holofotes, Jéssica encontrou sua verdadeira magia na simplicidade: nos abraços da maternidade, no cuidado com o corpo através do pilates, na alegria de uma alimentação saudável. Prova viva de que felizes mesmo são aqueles que sabem quando uma fase termina e outra começa.
Iara Jamra

Há uma qualidade rara em Iara Jamra, uma luz suave que nasce de pessoas que transformam o ordinário em extraordinário. Nascida em São Paulo em 1955, filha de uma família de médicos, ela poderia ter seguido caminhos mais convencionais. Mas escolheu a arte e que presente essa escolha foi para todos nós.
Nos palcos e nas telas, Iara sempre foi mais que uma atriz. Era presença. Aquela vizinha que todos gostariam de ter, a tia que conta as melhores histórias, a amiga que entende sem precisar de palavras. Nos anos 90, enquanto encantava crianças como a doce Nina do Programa Rá-Tim-Bum, com sua boneca careca e jeito maternal, simultaneamente roubava cenas nas novelas da Globo com personagens que, nas mãos de outros, seriam secundários, mas que ela transformava em pequenas obras-primas de humanidade.
Por trás desse talento singular, há uma história de resiliência. Aos 19 anos, viveu uma tragédia pessoal que marcaria para sempre sua trajetória, a perda do namorado para a violência policial. Foi no teatro que encontrou não apenas profissão, mas refúgio e redenção. Talvez seja essa dor transformada em arte que explique a profundidade que traz a seus personagens, mesmo os aparentemente mais leves.
Hoje, aos 69 anos, Iara vive um momento especial de sua carreira. Depois de 16 anos afastada das novelas, voltou com um papel denso em “Volta por Cima”, mostrando que atrizes maduras têm muito mais a oferecer do que estereótipos. Entre um trabalho e outro, molda literalmente sua própria história transformando argila em arte nas feiras de São Paulo. “É meu jeito de manter os pés no chão”, diz, numa metáfora perfeita para quem equilibra com maestria o sublime e o cotidiano.
Eliana Fonseca

Tudo começou num quintal de São Caetano do Sul, onde uma garotinha de 8 anos vestiu pela primeira vez a roupa do palhaço Batatinha, seguindo os passos do pai, operário de dia, artista de coração à noite. Nascida em 17 de fevereiro de 1961, Eliana Fonseca carregou para sempre essa dualidade mágica: os pés no chão da realidade operária e a cabeça nas nuvens da criação.
Formou-se na USP não uma, mas duas vezes, em Cinema e em Arte Dramática, como quem sabia que seu lugar era justamente na ponte entre essas duas artes. Seus primeiros curtas-metragens nos anos 80 já revelavam o que seria sua marca registrada: histórias que misturavam o lúdico com o social, como “A Revolta dos Carnudos”, onde crianças enfrentavam um mundo de adultos carecas.
Na TV, foi uma das arquitetas do universo mágico que marcou gerações. Enquanto atuava no “Programa Rá-Tim-Bum”, também dirigia e escrevia para o “Castelo Rá-Tim-Bum”, ajudando a criar aquela linguagem única que educava sem dar lições. Mas Eliana nunca se contentou com um só formato, transitou entre o humor ácido de “Casseta & Planeta” e o cotidiano poético de “Os Normais”, mostrando que sua arte não cabia em rótulos.
No palco e nas salas de aula (onde ensina há mais de 20 anos), Eliana pratica o que chama de “cirurgia da alma”: ajudar outros artistas a encontrarem suas vozes. Seu projeto “É Nóis na Fita” é puro reflexo disso, um curso onde jovens da periferia aprendem cinema na prática, como ela mesma aprendeu: fazendo.
Aos 62 anos, com cinco filmes de longa-metragem no currículo (o mais recente distribuído pela Disney) e a direção da série “Bugados”, Eliana prova que criatividade não tem idade. Mas seu maior orgulho talvez seja ter mantido, através de todas as transformações, aquela essência da menina que um dia vestiu a roupa de palhaço por amor à arte e nunca mais tirou.
Luiz Henrique/Mamma Bruschetta

Era uma tarde qualquer na TV Gazeta quando, em 1987, surgiu uma figura que mudaria para sempre a vida daquele ator paulistano de sorriso fácil e olhar esperto. Luiz Henrique Benincasa, um talentoso humorista de teatro, vestiu pela primeira vez o vestido floral, os óculos redondos e o sotaque carregado daquela que se tornaria sua alma gêmea artística: Mamma Bruschetta.
Nascido em 5 de setembro de 1949, em São Paulo, Luiz Henrique cresceu entre as luzes dos palcos. Nos anos 70, enquanto o país vivia sob a ditadura, ele encontrava no teatro de humor uma forma de resistência leve e afiada. Fazia rir ao lado de nomes como Marcelo Mansfield no Grupo Pod Minoga, mas ainda não imaginava que sua carreira seria dividida entre um ET sapeca e uma senhora italiana que conquistaria gerações.
Mas antes de conquistar o coração do Brasil como a fofoqueira mais querida da TV, Luiz Henrique havia deixado sua marca em programa icônico: o Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. Nos anos 1990, enquanto as crianças se encantavam com o universo educativo do programa, ele dava vida ao ET Zero, um alienígena curioso que “viajava” por São Paulo em busca de coisas inusitadas. “Foi um personagem que me deu grandes alegrias”, confessou em entrevista, lembrando com carinho do tempo em que estudava teatro e recebeu o convite para integrar o elenco .
A Mamma Bruschetta não era apenas uma personagem engraçada, era a tia que todo mundo queria ter. Nos 15 anos em que comandou o quadro no programa Mulheres, transformou fofoca em arte, celebridades em personagens e o cotidiano em espetáculo. Seu segredo? Um humor que nunca humilhava, uma ironia que aquecia em vez de cortar. “Ela era maternal até quando dava bronca”, lembra uma fã que cresceu assistindo às tardes da Gazeta.
Em 2016, quando o SBT a chamou para o Fofocalizando, foi como se o Brasil inteiro finalmente descobrisse o que São Paulo já sabia há décadas. Aos 67 anos, Luiz Henrique levou sua criação para todo o país, provando que bom humor não tem idade. Mas a vida reservava um desafio cruel: em 2019, o câncer no esôfago chegou sem pedir licença.
Foi então que o artista mostrou que, por trás da Mamma, havia um homem tão forte quanto sua personagem era doce. Enfrentou o tratamento com a mesma coragem que tinha ao subir no palco e quando perdia o cabelo para a quimio, fazia piada: “A Mamma vai ter que usar peruca nova!” .
Hoje, aos 75 anos, Luiz Henrique vive um tempo mais quieto, mas sempre que pode, dá as caras para lembrar ao público que a Mamma pode estar em recesso, mas nunca aposentada. Nas poucas entrevistas, seu olho brilha ao contar casos dos bastidores, como o dia em que uma senhora na rua lhe disse: “Minha filha, você me fez rir nos dias mais difíceis da minha vida”.
Ricardo Corte Real

Filho do lendário humorista Renato Côrte Real, Ricardo Côrte Real nasceu em 19 de julho de 1952 em São Paulo e desde cedo respirava arte. Aos 10 anos, já estava nos estúdios de TV ao lado do pai em Papai Sabe Nada, mas foi como Sócrates, o filho intelectual da Família Trapo, que começou a mostrar seu talento único, conseguindo dividir a cena com gigantes como Ronald Golias e Jô Soares sem se perder no caminho.
Nos anos 1990, uma geração inteira se encantou com seu ET Zero-Zero no Programa Rá-Tim-Bum, onde misturava humor absurdo com um carisma que só os grandes artistas possuem. “Era uma alegria pura fazer aquelas gravações”, lembra Ricardo, que entre uma cena e outra alimentava outra paixão: o blues. Sim, porque por trás do ator e apresentador, sempre houve um músico apaixonado, dono de uma coleção invejável de discos raros e histórias de shows memoráveis.
Foi como apresentador do SuperMarket que Ricardo entrou para a história da TV brasileira. Durante cinco anos e mais de mil episódios, reinventou o conceito de game show no país, com um estilo descontraído que misturava humor e marketing de forma pioneira. “Na época, as pessoas achavam que eu era louco por apostar tanto no merchandising”, conta, rindo. “Hoje todo mundo faz.”
Mas Ricardo nunca se contentou com um só palco. Foi da MTV ao teatro musical, do rádio ao marketing. Em 2017, fez um tributo emocionante ao pai com Máximo & Confúcio, provando que o bom humor da família Côrte Real continua vivo e atual.
Hoje, aos 71 anos, ele ainda é aquela criança que adorava fazer rir, só que agora com muitas histórias para contar. Seja em podcasts, programas de TV ou em seus projetos musicais, Ricardo mantém a mesma energia criativa de sempre. “O segredo é nunca parar de se divertir com o que faz”, diz, enquanto prepara seu próximo projeto. E nós, espectadores de várias gerações, agradecemos por ele nunca ter perdido essa vontade de nos entreter.
Carlos Moreno

Carlos Moreno é daqueles raros casos em que a vida imita a arte, ou seria o contrário? Nascido em São Paulo em 1954, esse arquiteto que nunca construiu um prédio acabou erguendo algo mais duradouro: personagens que tornaram-se parte do imaginário brasileiro.
Formado pela USP com diploma que nunca usou profissionalmente, Carlos encontrou seu verdadeiro chamado nos palcos com o grupo Pod Minoga. Mas foi em 1978 que seu destino mudou para sempre quando entrou nas casas de todo o Brasil como o sorridente Garoto Bombril. Durante 25 anos e quase 400 comerciais, ele tornou-se não apenas um ícone publicitário, mas uma presença familiar, aquele vizinho simpático que todo mundo achava que conhecia pessoalmente.
Nos anos 90, trocou as panelas de aço por uma cobra de estimação chamada Silvia quando entrou para o elenco do Rá-Tim-Bum como o curioso Euclides. “As crianças me perguntavam se a Silvia era de verdade”, ri ao lembrar. “Eu respondia que era, mas que ficava muito bem comportada durante as gravações.” Nos bastidores, era conhecido por seu humor discreto e profissionalismo, sempre o primeiro a chegar e o último a sair.
Apesar do sucesso como garoto-propaganda, Carlos nunca se contentou em ser apenas isso. Fez teatro musical, participou de esquetes com Jô Soares e, mesmo aos 70 anos, em 2024, mostrou que ainda tinha gás para o cinema em “Caindo na Real”. “Nunca entendi essa coisa de aposentadoria para artista”, reflete. “Enquanto tiver gente querendo me ver e eu tiver histórias para contar, por que parar?”
Hoje, quando não está trabalhando, Carlos pode ser encontrado em algum café de São Paulo, às vezes reconhecido como o Garoto Bombril, outras vezes como o Professor Euclides e sempre com a mesma simpatia de quem entende que fez parte da infância de muita gente. “O mais gratificante não é ser lembrado”, diz, “é saber que de alguma forma participei da vida das pessoas”. E nisso, Carlos Moreno construiu algo muito mais valioso que qualquer prédio: um lugar permanente no coração do Brasil.
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